Círculo mortal de tiriricas

Você sabia que formigas armadeiras podem entrar em um ciclo de autodestruição? É a espiral da morte (música de filme de terror). As formigas, como os petistas, se orientam por feromônios umas das outras. Mas elas podem de repente começar a andar em círculos, uma seguindo a outra, em loop eterno, até morrerem de exaustão.

No texto que explica isso, a autora comenta que esse fenômeno é usado como uma fábula para advertir sobre riscos em sistemas auto-organizáveis. Esse tipo de sistema – formigas, neurônios, internet – tem seu funcionamento aprimorado constantemente; eles aprendem. Mas podem dar tilt. O capitalismo é um caso: tem suas “leis naturais”, como a oferta e a procura, que regulam o sistema, mantêm o equilíbrio. Mas de repente, começa uma bolha a crescer e o sistema não consegue sair sozinho desse estado, pelo menos não a tempo.

A espiral da morte das formigas também ajuda a explicar a candidatura Tiririca e as projeções de voto que vêm sendo feitas. O Tiririca é o candidato a deputado a receber mais atenção da imprensa e do público, ainda que em boa parte negativa. Toda vez que alguém decide alertar os eleitores a não votar nele, ajuda a reforçar seu nome na memória. E para os cargos proporcionais, a lembrança é o mais importante. Pros majoritários, o eleitor escolhe entre um punhado de opções. Para deputado federal e estadual, o leque é maior, as informações mais escassas. Saber que fulano é candidato muitas vezes importa mais que gostar dele.

PS. Eu tenho consciência que com esse post acabo de entrar também na dança, sou mais uma formiguinha.

PS 2. Não entendo o argumento “se você votar no Tiririca, ajuda a eleger X”. Se eleger o Tiririca não é um problema, por que X seria?

PS 3. Sobre sistemas auto-organizáveis, recomendo muito o Emergência, do Steven Johnson.

Casas de vidro, parte I

Queria comentar três aspectos de algo que poderia, com algum sensacionalismo, ser chamado “o fim de todos segredos” ou, numa versão para paranóicos, “estão todos te vigiando”. O primeiro é a exposição voluntária ou semi-voluntária, da qual depois não conseguimos nos livrar; o segundo é como as empresas estão aprendendo mais e mais sobre nós sem que notemos; por fim, o fato de que governos e outras instituições também podem estar entrando na dança, como mostra o WikiLeaks. Para não ficar muito longo e para fingir que eu atualizo o blog com mais freqüência, vou dividir em partes. Valendo!

A falecida B*Scene, antes de dar seu último suspiro, ficou um tempo num limbo virtual: continuava no ar, mas não tínhamos mais acesso ao servidor diretamente. Poderíamos tentar descobrir uma maneira de desligar os aparelhos, mas não estávamos prontas para isso. Nesse período, houve quem, entre os autores convidados, nos pedisse para tirar ou modificar algum texto por questões profissionais. Infelizmente, não pudemos atender. E em todo caso, o cache do Google continuaria por algum tempo revelando a versão original.

Por outro lado, porém, ficaria triste de editar ou apagar algum texto que passou pelos nossos padrões quase antipaticamente exigentes. Esse sentimento dúbio vale para textos bem pensados e escritos, mas vale até para momentos realmente embaraçosos. Seria possível apagar as bobagens que falei (e as que ainda falo) sem apagar a boba que fui (e sou)?

O New York Times fez uma ótima extensa reportagem (que o Alex linkou no Twitter) sobre esquecer e perdoar na era digital. Fala de pessoas que perdem ou deixam de conseguir um emprego por causa de situações de suas vidas pessoais publicadas em redes sociais; fala sobre como fica recomeçar do zero e deixar o passado para trás; discute possibilidades legais, judiciais e tecnológicas para lidar com informações online que possam manchar a sua reputação – a mais interessante, a meu ver, é estabelecer prazos de validade para postagens, que se autodestruiriam após a data programada; cita campanhas para que jovens pensem antes de publicar; lembra a polêmica política de privacidade do Facebook e da visão de seu fundador, Mark Zuckerberg, de que exposição é a nova norma social (ele provou do próprio veneno); e aborda os aspectos morais e culturais que mudam quando nossa vida passa a acontecer em uma vitrine.

Esses são os que mais me interessam e preocupam, especialmente um possível retrocesso na ideia de moral & bons costumes. Afinal, vivemos uma época em que Steve Jobs se orgulha de libertar da pornografia os consumidores de iPhones e iPads. Casos mostrados na reportagem do NY Times poderiam facilmente ser considerados coisas corriqueiras, como a moça que queria ser professora bebendo em uma festa, e mesmo algumas mais graves deveriam ser encaradas sem tanto escândalo – somos apenas humanos, não é? Mecanismos para preservar os segredos que espalhamos sobre nós mesmos são bem-vindos. Mas nem todas as tatuagens poderão ser removidas ou desejaremos remover. Temos que viver com isso.

PS. Também podemos mudar o passado.

A conta do conteúdo e a limonada

Outro dia, na mesa do bar, começamos a fazer uma lista das polêmicas (ou falsas polêmicas) mais chatas do mundo. Meu voto foi para a reforma ortográfica e os viúvos do trema. Mas um clichê que poderia facilmente disputar esse ranking é o que se expressa nos seguintes termos: “Quem vai pagar a conta do conteúdo na internet?”

Oras, vai pagar quem sempre pagou: você (e eu e os outros). Quem você acha que paga a conta da tevê aberta? Os anunciantes?

Então, por que as empresas continuam insistindo em fazer publicidade? Pelo seguinte motivo: elas repassam o custo da propaganda para os consumidores. De acordo com a revista The Economist, em 1993, a “TV gratuita” nos Estados Unidos custou US$ 30 por mês a cada americano.

O trecho acima é do livro A Sociedade em Rede, do Manuel Castells. Ou seja, pode-se discutir modelos de negócios, mas em última estância a conta vai sempre para o mesmo lugar.

Acho que é uma aposta segura dizer que na internet vão conviver diversas modalidades de pagamento direto (assinatura) e indireto (publicidade ou patrocínio, privado ou estatal). Só que com uma mudança em relação à tevê ou outros meios de comunicação: muitas vezes grátis é grátis mesmo.

No começo do mês, três garotinhas em um subúrbio de Chicago resolveram fazer limonada e distribuir de graça, em vez de vender – um ultraje, segundo uma colunista do Chicago Sun-Times, que acredita que limonadas existem para serem vendidas. Dan Gilmour, autor do Nós, os Media, e Cory Doctorow, do Boing Boing, deram seus pitacos sobre o assunto.

O nervosismo de alguns textos sobre “quem vai pagar a conta” me parece muito com a bronca da colunista com as garotas. O problema não é apenas com os que “roubam”, consumindo textos, sons e imagens sem pagar (as pessoas pagam até demais, basta ver os valores absurdos de toques de celular e ingressos de festival). O problema é com quem, por idealismo, generosidade ou falta do que fazer, abre mão do pagamento. É o meu caso e o de um monte de gente.

Aliás: sobre o tema, vale dar uma olhada no Free, do Chris Anderson.

Entrelinhas

A linguagem é como um agente duplo de filmes de espionagem: serve simultaneamente para mostrar e para esconder, para contar e para dissimular. Existe um segundo código, sob o primeiro (a língua), que muitas vezes passa despercebido.

Isso, essa saudade das aulas de Linguística, veio à tona com dois textos. O primeiro é de uma moça que assina como Lynne Soraya e que tem um blog sobre sua vida com a síndrome de Asperger. No último post, ela fala sobre as dificuldades em se relacionar com outras mulheres, por causa das lacunas em cada conversa, dos pedaços não-ditos que devem ser adivinhados. Por exemplo, quando sua amiga lhe diz “A Jane confirmou presença na festa e não foi! Nem telefonou. Essa é a quinta vez! Você acredita?”, a resposta de Lynne seria “Sim, acredito” – afinal, é o comportamento esperado de alguém que já fez isso quatro vezes. Mas o que a amiga realmente quis dizer é “Você acredita [que ela me trate tão mal? Estou tão magoada!]?!” – é um pedido por apoio.

(Será mesmo que as mulheres se valem mais dos implícitos? Isso teria a ver com demonstrar emoções? Será que ainda não saímos do gineceu? Vou largar as perguntas aqui e mudar de assunto).

O segundo texto começa de forma ambiciosa (provavelmente demais): o colunista do Guardian Oliver Burkeman promete mudar sua vida. Ele utiliza uma divisão feita por Andrea Donderi, que propõe dois grupos: askers (perguntadores, pedidores) e guessers (adivinhadores). Os primeiros são a turma do “perguntar não ofende”: vale pedir aumento, dinheiro emprestado, etc. Se a resposta for negativa, a vida segue sem maiores problemas. Já os guessers evitarão ao máximo se arriscar a ouvir um não e farão rodeios para chegar onde querem. O problema, como se pode imaginar, é quando esses dois tipos (por personalidade ou por diferenças culturais) se encontram. A tradução dos termos do inglês para o português já mostra para que lado o pêndulo cai: em vez de um verbo só, temos pedir e perguntar, cuja construção – “você pode?” – são substitutas para a rudeza do imperativo.

São ruídos e silêncios. E com eles também se faz música.

Tarde demais para lembrar

Meu trabalho atualmente é recuperar e contar uma história que começa antes do meu nascimento. Como a documentação é escassa, nossa principal tarefa é ouvir personagens contarem suas histórias, vê-los vasculhar baús que, muitas vezes, estavam fechados havia tempos. A memória alheia é minha matéria-prima.

Obama e Ahmadinejad

E, no entanto, ela é muito mais maleável do que se costuma imaginar: ao tentar pegá-la, por vezes a deformamos. Isso foi mais uma vez confirmado. Recentemente, a revista Slate fez alguns experimentos para mostrar como a memória pode ser manipulável. A revista alterou fotografias para que representassem fatos políticos inexistentes – e parte dos participantes lembrou desses fatos. A inspiração veio da pesquisadora Elizabeth Loftus, que há cerca de 40 anos estuda o assunto. Sua pesquisa jogou uma saudável sombra sobre a confiabilidade de testemunhos em tribunais e lembranças de abusos trazidas por psicoterapeutas. Ao ser informada de alguns detalhes, uma pessoa pode construir uma memória particular de um evento inexistente.

Lembrar é sempre inventar, mesmo quando se trata de fatos reais. Porque contar é inventar, e lembrar é contar, narrar, ainda que para si mesmo. Um trecho do livro-reportagem O Dilema do Onívoro, de Michael Pollan, ilustra bem como isso acontece.

Angelo apressou-se para ver o animal, excitado e ansioso para ouvir nossa história. É curioso o modo como a história em torno de uma caçada toma forma nos minutos que se seguem ao tiro, à medida que avançamos em meio à caótica simultaneidade do momento iluminador e fugidio, procurando fazer surgir da visão embaçada pela adrenalina algo linear e compreensível. Ainda que tivéssemos testemunhado juntos o acontecimento, Richard e eu tínhamos alternado cuidadosamente ao contar a história um para o outro durante a longa caminhada de volta, passando em revista nossa falta de atenção, relembrando as razões pelas quais Richard – e não eu – tinha atirado, tentando precisar a distância exata e o número de porcos envolvidos, desembrulhando lentamente o  momento e transformando nossa lembrança tumultuada num consenso em torno do fato – uma história de caçada.

Não é difícil se identificar com o trecho, mesmo para quem nunca segurou uma arma na vida. Repassar a história, tentar suprir as lacunas e mesmo imaginar a reação dos ouvintes são processos comuns e se tornam reais para que os vive. Se para um fato recente já é assim, que tal para eventos ocorridos há mais de 30 anos? Mas eu não planejo admitir derrota. Claro, tentar checar com fontes diversas, não colocar palavras na boca dos entrevistados – e lembrar que as verdades muitas vezes abrem seus caminhos em meio à ficção.

Câmbio

A manchete dizia: “Economista passa 18 meses vivendo sem dinheiro e diz que nunca foi tão feliz”. Eu falei no Twitter que a notícia era a cara da Katia e não só pelo hippismo que ela acalenta. O dinheiro é um denominador comum: eu tenho alguma coisa (digamos, força de trabalho) e quero outra coisa (digamos, comida); ao invés de fazer a troca direta, eu converto minha força de trabalho em dinheiro, outro converte sua comida em dinheiro e nós podemos fazer a troca. Certo?

Existem dinheiros diferentes e a troca entre eles depende de uma taxa de câmbio. Mas a taxa de câmbio não é regulada por algum valor intrínseco das moedas, é afetada por uns tantos fatores, fazendo com que uma moeda possa estar sobrevalorizada em relação a outra. O Mercosul, por exemplo, firmou um acordo para fazerem transações sem passar pelo dólar como denominador comum (não sei se está dando certo, mas não vem ao caso).

O denominador comum pode pender para um lado ou para o outro, ao invés de ficar justinho no centro (se é que há um centro). Como o Mercosul, o sujeito que abdicou do dinheiro também está eliminando uma interface e fazendo trocas diretas – trabalho por internet, bondade por bondade – e descobriu vantagens nisso. Tem coisas que vão muito mal na conversão pra dinheiro; algumas delas são as que minha amiga Katia é melhor em fazer.

Mas eu puxei esse fio de ideias enquanto pensava como sou, ahn, verbocêntrica. Eu acredito que a maneira mais eficiente de dizer alguma coisa é dizendo, com palavras. Eu escolhi isso pra ganhar a vida. Eu sempre lembro e sempre cito o Millor: “‘Uma imagem vale mil palavras’. Mas como você diria isso com imagens?”. Que fazer então da pintura, da música, da arquitetura ou mesmo de uma comida gostosa? Palavras, como dinheiro, são denominadores comuns e – sou obrigada a admitir – nem sempre são os melhores. É, amigo, tem coisas que as palavras não compram…

Web filosófica

A estudante de jornalismo e psicologia Kate Ray fez um documentário excelente sobre a Web Semântica, desde os problemas com a enorme quantidade de informação com que se lida na internet, os modelos em discussão e as críticas.

O filme tangencia alguns pontos que já andavam rondando minha cabeça e que merecerão um post em breve: uma é o estresse causado pelo excesso de escolhas. Outra é visão do Tim Berners-Lee sobre o tipo de plataforma necessário. Ele diz que a web semântica

é apenas uma plataforma. Assim como a web. A ideia não é promover um tipo particular de aplicação. Assim como a internet não promoveu um tipo particular de aplicação, então eu pude construir a web sobre ela sem pedir a permissão de ninguém. Da mesma forma, a web semântica é de certo modo construída sobre a web, ela deve permitir que você construa o que quiser sobre ela.

Me lembrou que quero escrever sobre dispositivos e limites e dar meu pitaco de tapa na orelha do Steve Jobs.

O documentário também me abriu uma janela para o uso do termo ontologia dentro da ciência da informação – o que por sua vez descortinou mais uma vasta área da minha ignorância.  Mas não é que esse negócio de filosofia serve pra alguma coisa?

Por fim, curti as áreas de estudo da autora do filme. Muita gente vem falando sobre a importância de jornalistas estudarem programação, e eu apóio, mas estudar psicologia junto deve ser muito legal.