Arquivo para abril \29\UTC 2010

Linha de montagem (Vendo as informações III)

Existe algo positivista na atual febre de gráficos e fluxogramas: uma crença que tudo no mundo pode ser dividido em partes ou etapas menores básicas, como átomos formando objetos. A cultura do computador nos faz buscar isso, afinal, é assim que computadores trabalham. Pra um computador, o importante é a descrição de cada passo do caminho, e não onde esse caminho vai dar. Pode reparar que algumas pessoas têm mais dificuldade de pensar dessa forma, de descrever suas tarefas cotidianas como algoritmo.

Mas o computador em si é herdeiro do processo de “dividir e conquistar”, que foi desenvolvido largamente devido à Revolução Industrial, especialmente o Taylorismo.

O problema é que nem tudo pode ou deve ser mecanizado ou computadorizado. Algumas coisas não têm fórmula e precisam ser encaradas integralmente. O primeiro exemplo é, naturalmente, a arte. Sobre a poesia, um professor dizia (acho que citando outrém) que se faz forjando uma fôrma, mas que só pode ser usada uma vez. Mesmo textos mais técnicos e menos literários perdem ao virar fórmula.

Enquanto a ciência lida com o desafio de fazer máquinas que consigam pensar como seres humanos, a gente tenta não virar robô. Em outro texto eu mencionei a triste influência do PowerPoint sobre o jornalismo. Mas e quando isso acontece com as Forças Armadas de um país constantemente em guerra? O New York Times fez uma matéria sobre a epidemia de slides entre os militares. Seth Godin complementa com comentários sobre o emburrecimento que geram os textos em tópicos.

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Vendo as informações II

Tornar dados, especialmente números muito grandes, visíveis e compreensíveis não vem sendo uma preocupação exclusiva da internet. Depois do post anterior, lembrei de um trabalho muito legal: Of All The People In All The World. É uma exposição itinerante que convida pessoas a compartilharem e conhecerem estatísticas a partir de uma medida simples: uma pessoa = um grão de arroz. No vídeo acima, tem uma explicação melhor de como funciona o projeto. Dá pra ver fotos no Flickr.

Também esbarrei em outros trabalhos ótimos em infográficos. Em seu site Information Is Beautiful, David McCandless reúne trabalhos próprios (como este acima) e outros que ele encontra por aí. Ele é colaborador do Guardian Datablog, outra fonte interessante para encontrar gráficos e debate sobre eles.

Ali, um dos temas recorrentes são as eleições gerais no Reino Unido, que acontecem em 6 de maio – pesquisas são exatamente o tipo de assunto que se beneficia de uma abordagem visual inteligente. O que nos leva à última indicação do post: o blog do José Roberto de Toledo, que está analisando as pesquisas nas eleições de outubro.

Vendo as informações

No último fim de semana, circulou pela web o infográfico definitivo sobre infográficos. Embora ele obviamente aponte algo existente – gráficos vazios de conteúdo ou usando as ferramentas inadequadas – também vejo como mais um sinal de uma mudança importante em como consumimos informação e, por consequência, em como a processamos.

A disseminação do uso de gráficos, fluxogramas, mapas, nuvens, etc. é, em parte, moda (e um triste sinal que a cultura do PowerPoint chegou ao jornalismo). Mas é também uma adequação a uma nova conjuntura: uma grande quantidade de dados tornados públicos em formatos estruturados. Isso leva a um tipo de raciocínio que privilegia a visualização de dados, ao invés de abstração; o cruzamento de dados vindos de áreas diferentes, ao invés de especialização; e a possibilidade de interação e modificação dos dados iniciais.

Links interessantes:

Google Public Data – dá para comparar dados de origens diferentes, como produto interno bruto e taxa de natalidade, em países diferentes e ao longo do tempo.

GraphJam – nasceu com a brincadeira de transformar músicas, filmes e cultura pop em geral em gráficos, mas agora tem de tudo um pouco.

PivotTable – um demo da nova ferramenta da Microsoft para organizar e visualizar grandes quantidades de dados e imagens.