Arquivo para maio \06\UTC 2010

O ataque dos números

Venho construindo meu caminho com palavras, não números. Mas as aulas de Matemática pra mim nunca foram motivo de trauma, como aconteceu com bastante gente. Os que sofreram, em geral buscaram asilo na área de Humanas, pensando estar a salvo. E não estão.

É para os meus amigos numerofóbicos que eu recomendo dois artigos recentes.

Na Wired, Clive Thompson defende a necessidade de uma educação estatística. Ele argumenta (soa meio óbvio, até) que há questões que só podemos entender via estatística, como a economia ou o aquecimento global. Só nossa experiência não conta muita coisa. A estatística é a maneira de escaparmos de nós mesmos e termos uma ideia do mundo.

Nós costumamos dizer, com justiça, que a alfabetização é crucial para a vida pública: se você não sabe escrever, não consegue pensar. A mesma coisa é verdade para a matemática agora. Estatística é a nova gramática.

Mas existe também a chance de usarmos os números para afundarmos em nós mesmos. Em um longo artigo para a revista do New York Times, Gary Wolf fala sobre os self-trackers, pessoas que recolhem obsessivamente dados sobre seu dia-a-dia (alimentação, trabalho, atividade física e até sentimentos) em busca de descobertas sobre si mesmos. Ele aponta alguns fatores – avanço de sensores pequenos, celulares e redes sociais – que permitem que alguém decida analisar sua vida por uma série de planilhas. Além de maior controle, aparentemente fazer confissões a uma máquina é menos embaraçoso, mas ainda assim emocionalmente satisfatório.

Uma longa linha de pesquisa em interação humano-computador demonstra que quando máquinas recebem característica humanizadas e oferecem conforto emocional, nós de fato nos sentimos confortados. Isso é humilhante. Nós realmente nos sentimos melhor quando um computador nos dá um tapinha nas costas? Sim, nos sentimos.

O que intriga (e me incomoda um pouco) nisso não é procurar as respostas nos números, mas a pergunta que é feita. Auto-conhecimento é importante e Freud mostrou que podemos tratar neuroses conhecendo suas origens. Mas a obsessão com auto-conhecimento também chega às raias do patológico. Enquanto lia o texto, ficava me perguntando se o processo de anotar tudo em detalhes também era computado. É mais um número a se levar em conta.