Arquivo para junho \28\UTC 2010

Entrelinhas

A linguagem é como um agente duplo de filmes de espionagem: serve simultaneamente para mostrar e para esconder, para contar e para dissimular. Existe um segundo código, sob o primeiro (a língua), que muitas vezes passa despercebido.

Isso, essa saudade das aulas de Linguística, veio à tona com dois textos. O primeiro é de uma moça que assina como Lynne Soraya e que tem um blog sobre sua vida com a síndrome de Asperger. No último post, ela fala sobre as dificuldades em se relacionar com outras mulheres, por causa das lacunas em cada conversa, dos pedaços não-ditos que devem ser adivinhados. Por exemplo, quando sua amiga lhe diz “A Jane confirmou presença na festa e não foi! Nem telefonou. Essa é a quinta vez! Você acredita?”, a resposta de Lynne seria “Sim, acredito” – afinal, é o comportamento esperado de alguém que já fez isso quatro vezes. Mas o que a amiga realmente quis dizer é “Você acredita [que ela me trate tão mal? Estou tão magoada!]?!” – é um pedido por apoio.

(Será mesmo que as mulheres se valem mais dos implícitos? Isso teria a ver com demonstrar emoções? Será que ainda não saímos do gineceu? Vou largar as perguntas aqui e mudar de assunto).

O segundo texto começa de forma ambiciosa (provavelmente demais): o colunista do Guardian Oliver Burkeman promete mudar sua vida. Ele utiliza uma divisão feita por Andrea Donderi, que propõe dois grupos: askers (perguntadores, pedidores) e guessers (adivinhadores). Os primeiros são a turma do “perguntar não ofende”: vale pedir aumento, dinheiro emprestado, etc. Se a resposta for negativa, a vida segue sem maiores problemas. Já os guessers evitarão ao máximo se arriscar a ouvir um não e farão rodeios para chegar onde querem. O problema, como se pode imaginar, é quando esses dois tipos (por personalidade ou por diferenças culturais) se encontram. A tradução dos termos do inglês para o português já mostra para que lado o pêndulo cai: em vez de um verbo só, temos pedir e perguntar, cuja construção – “você pode?” – são substitutas para a rudeza do imperativo.

São ruídos e silêncios. E com eles também se faz música.

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Tarde demais para lembrar

Meu trabalho atualmente é recuperar e contar uma história que começa antes do meu nascimento. Como a documentação é escassa, nossa principal tarefa é ouvir personagens contarem suas histórias, vê-los vasculhar baús que, muitas vezes, estavam fechados havia tempos. A memória alheia é minha matéria-prima.

Obama e Ahmadinejad

E, no entanto, ela é muito mais maleável do que se costuma imaginar: ao tentar pegá-la, por vezes a deformamos. Isso foi mais uma vez confirmado. Recentemente, a revista Slate fez alguns experimentos para mostrar como a memória pode ser manipulável. A revista alterou fotografias para que representassem fatos políticos inexistentes – e parte dos participantes lembrou desses fatos. A inspiração veio da pesquisadora Elizabeth Loftus, que há cerca de 40 anos estuda o assunto. Sua pesquisa jogou uma saudável sombra sobre a confiabilidade de testemunhos em tribunais e lembranças de abusos trazidas por psicoterapeutas. Ao ser informada de alguns detalhes, uma pessoa pode construir uma memória particular de um evento inexistente.

Lembrar é sempre inventar, mesmo quando se trata de fatos reais. Porque contar é inventar, e lembrar é contar, narrar, ainda que para si mesmo. Um trecho do livro-reportagem O Dilema do Onívoro, de Michael Pollan, ilustra bem como isso acontece.

Angelo apressou-se para ver o animal, excitado e ansioso para ouvir nossa história. É curioso o modo como a história em torno de uma caçada toma forma nos minutos que se seguem ao tiro, à medida que avançamos em meio à caótica simultaneidade do momento iluminador e fugidio, procurando fazer surgir da visão embaçada pela adrenalina algo linear e compreensível. Ainda que tivéssemos testemunhado juntos o acontecimento, Richard e eu tínhamos alternado cuidadosamente ao contar a história um para o outro durante a longa caminhada de volta, passando em revista nossa falta de atenção, relembrando as razões pelas quais Richard – e não eu – tinha atirado, tentando precisar a distância exata e o número de porcos envolvidos, desembrulhando lentamente o  momento e transformando nossa lembrança tumultuada num consenso em torno do fato – uma história de caçada.

Não é difícil se identificar com o trecho, mesmo para quem nunca segurou uma arma na vida. Repassar a história, tentar suprir as lacunas e mesmo imaginar a reação dos ouvintes são processos comuns e se tornam reais para que os vive. Se para um fato recente já é assim, que tal para eventos ocorridos há mais de 30 anos? Mas eu não planejo admitir derrota. Claro, tentar checar com fontes diversas, não colocar palavras na boca dos entrevistados – e lembrar que as verdades muitas vezes abrem seus caminhos em meio à ficção.

Câmbio

A manchete dizia: “Economista passa 18 meses vivendo sem dinheiro e diz que nunca foi tão feliz”. Eu falei no Twitter que a notícia era a cara da Katia e não só pelo hippismo que ela acalenta. O dinheiro é um denominador comum: eu tenho alguma coisa (digamos, força de trabalho) e quero outra coisa (digamos, comida); ao invés de fazer a troca direta, eu converto minha força de trabalho em dinheiro, outro converte sua comida em dinheiro e nós podemos fazer a troca. Certo?

Existem dinheiros diferentes e a troca entre eles depende de uma taxa de câmbio. Mas a taxa de câmbio não é regulada por algum valor intrínseco das moedas, é afetada por uns tantos fatores, fazendo com que uma moeda possa estar sobrevalorizada em relação a outra. O Mercosul, por exemplo, firmou um acordo para fazerem transações sem passar pelo dólar como denominador comum (não sei se está dando certo, mas não vem ao caso).

O denominador comum pode pender para um lado ou para o outro, ao invés de ficar justinho no centro (se é que há um centro). Como o Mercosul, o sujeito que abdicou do dinheiro também está eliminando uma interface e fazendo trocas diretas – trabalho por internet, bondade por bondade – e descobriu vantagens nisso. Tem coisas que vão muito mal na conversão pra dinheiro; algumas delas são as que minha amiga Katia é melhor em fazer.

Mas eu puxei esse fio de ideias enquanto pensava como sou, ahn, verbocêntrica. Eu acredito que a maneira mais eficiente de dizer alguma coisa é dizendo, com palavras. Eu escolhi isso pra ganhar a vida. Eu sempre lembro e sempre cito o Millor: “‘Uma imagem vale mil palavras’. Mas como você diria isso com imagens?”. Que fazer então da pintura, da música, da arquitetura ou mesmo de uma comida gostosa? Palavras, como dinheiro, são denominadores comuns e – sou obrigada a admitir – nem sempre são os melhores. É, amigo, tem coisas que as palavras não compram…

Web filosófica

A estudante de jornalismo e psicologia Kate Ray fez um documentário excelente sobre a Web Semântica, desde os problemas com a enorme quantidade de informação com que se lida na internet, os modelos em discussão e as críticas.

O filme tangencia alguns pontos que já andavam rondando minha cabeça e que merecerão um post em breve: uma é o estresse causado pelo excesso de escolhas. Outra é visão do Tim Berners-Lee sobre o tipo de plataforma necessário. Ele diz que a web semântica

é apenas uma plataforma. Assim como a web. A ideia não é promover um tipo particular de aplicação. Assim como a internet não promoveu um tipo particular de aplicação, então eu pude construir a web sobre ela sem pedir a permissão de ninguém. Da mesma forma, a web semântica é de certo modo construída sobre a web, ela deve permitir que você construa o que quiser sobre ela.

Me lembrou que quero escrever sobre dispositivos e limites e dar meu pitaco de tapa na orelha do Steve Jobs.

O documentário também me abriu uma janela para o uso do termo ontologia dentro da ciência da informação – o que por sua vez descortinou mais uma vasta área da minha ignorância.  Mas não é que esse negócio de filosofia serve pra alguma coisa?

Por fim, curti as áreas de estudo da autora do filme. Muita gente vem falando sobre a importância de jornalistas estudarem programação, e eu apóio, mas estudar psicologia junto deve ser muito legal.