Arquivo para agosto \03\UTC 2010

Casas de vidro, parte I

Queria comentar três aspectos de algo que poderia, com algum sensacionalismo, ser chamado “o fim de todos segredos” ou, numa versão para paranóicos, “estão todos te vigiando”. O primeiro é a exposição voluntária ou semi-voluntária, da qual depois não conseguimos nos livrar; o segundo é como as empresas estão aprendendo mais e mais sobre nós sem que notemos; por fim, o fato de que governos e outras instituições também podem estar entrando na dança, como mostra o WikiLeaks. Para não ficar muito longo e para fingir que eu atualizo o blog com mais freqüência, vou dividir em partes. Valendo!

A falecida B*Scene, antes de dar seu último suspiro, ficou um tempo num limbo virtual: continuava no ar, mas não tínhamos mais acesso ao servidor diretamente. Poderíamos tentar descobrir uma maneira de desligar os aparelhos, mas não estávamos prontas para isso. Nesse período, houve quem, entre os autores convidados, nos pedisse para tirar ou modificar algum texto por questões profissionais. Infelizmente, não pudemos atender. E em todo caso, o cache do Google continuaria por algum tempo revelando a versão original.

Por outro lado, porém, ficaria triste de editar ou apagar algum texto que passou pelos nossos padrões quase antipaticamente exigentes. Esse sentimento dúbio vale para textos bem pensados e escritos, mas vale até para momentos realmente embaraçosos. Seria possível apagar as bobagens que falei (e as que ainda falo) sem apagar a boba que fui (e sou)?

O New York Times fez uma ótima extensa reportagem (que o Alex linkou no Twitter) sobre esquecer e perdoar na era digital. Fala de pessoas que perdem ou deixam de conseguir um emprego por causa de situações de suas vidas pessoais publicadas em redes sociais; fala sobre como fica recomeçar do zero e deixar o passado para trás; discute possibilidades legais, judiciais e tecnológicas para lidar com informações online que possam manchar a sua reputação – a mais interessante, a meu ver, é estabelecer prazos de validade para postagens, que se autodestruiriam após a data programada; cita campanhas para que jovens pensem antes de publicar; lembra a polêmica política de privacidade do Facebook e da visão de seu fundador, Mark Zuckerberg, de que exposição é a nova norma social (ele provou do próprio veneno); e aborda os aspectos morais e culturais que mudam quando nossa vida passa a acontecer em uma vitrine.

Esses são os que mais me interessam e preocupam, especialmente um possível retrocesso na ideia de moral & bons costumes. Afinal, vivemos uma época em que Steve Jobs se orgulha de libertar da pornografia os consumidores de iPhones e iPads. Casos mostrados na reportagem do NY Times poderiam facilmente ser considerados coisas corriqueiras, como a moça que queria ser professora bebendo em uma festa, e mesmo algumas mais graves deveriam ser encaradas sem tanto escândalo – somos apenas humanos, não é? Mecanismos para preservar os segredos que espalhamos sobre nós mesmos são bem-vindos. Mas nem todas as tatuagens poderão ser removidas ou desejaremos remover. Temos que viver com isso.

PS. Também podemos mudar o passado.

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