O ataque dos números

Venho construindo meu caminho com palavras, não números. Mas as aulas de Matemática pra mim nunca foram motivo de trauma, como aconteceu com bastante gente. Os que sofreram, em geral buscaram asilo na área de Humanas, pensando estar a salvo. E não estão.

É para os meus amigos numerofóbicos que eu recomendo dois artigos recentes.

Na Wired, Clive Thompson defende a necessidade de uma educação estatística. Ele argumenta (soa meio óbvio, até) que há questões que só podemos entender via estatística, como a economia ou o aquecimento global. Só nossa experiência não conta muita coisa. A estatística é a maneira de escaparmos de nós mesmos e termos uma ideia do mundo.

Nós costumamos dizer, com justiça, que a alfabetização é crucial para a vida pública: se você não sabe escrever, não consegue pensar. A mesma coisa é verdade para a matemática agora. Estatística é a nova gramática.

Mas existe também a chance de usarmos os números para afundarmos em nós mesmos. Em um longo artigo para a revista do New York Times, Gary Wolf fala sobre os self-trackers, pessoas que recolhem obsessivamente dados sobre seu dia-a-dia (alimentação, trabalho, atividade física e até sentimentos) em busca de descobertas sobre si mesmos. Ele aponta alguns fatores – avanço de sensores pequenos, celulares e redes sociais – que permitem que alguém decida analisar sua vida por uma série de planilhas. Além de maior controle, aparentemente fazer confissões a uma máquina é menos embaraçoso, mas ainda assim emocionalmente satisfatório.

Uma longa linha de pesquisa em interação humano-computador demonstra que quando máquinas recebem característica humanizadas e oferecem conforto emocional, nós de fato nos sentimos confortados. Isso é humilhante. Nós realmente nos sentimos melhor quando um computador nos dá um tapinha nas costas? Sim, nos sentimos.

O que intriga (e me incomoda um pouco) nisso não é procurar as respostas nos números, mas a pergunta que é feita. Auto-conhecimento é importante e Freud mostrou que podemos tratar neuroses conhecendo suas origens. Mas a obsessão com auto-conhecimento também chega às raias do patológico. Enquanto lia o texto, ficava me perguntando se o processo de anotar tudo em detalhes também era computado. É mais um número a se levar em conta.

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Linha de montagem (Vendo as informações III)

Existe algo positivista na atual febre de gráficos e fluxogramas: uma crença que tudo no mundo pode ser dividido em partes ou etapas menores básicas, como átomos formando objetos. A cultura do computador nos faz buscar isso, afinal, é assim que computadores trabalham. Pra um computador, o importante é a descrição de cada passo do caminho, e não onde esse caminho vai dar. Pode reparar que algumas pessoas têm mais dificuldade de pensar dessa forma, de descrever suas tarefas cotidianas como algoritmo.

Mas o computador em si é herdeiro do processo de “dividir e conquistar”, que foi desenvolvido largamente devido à Revolução Industrial, especialmente o Taylorismo.

O problema é que nem tudo pode ou deve ser mecanizado ou computadorizado. Algumas coisas não têm fórmula e precisam ser encaradas integralmente. O primeiro exemplo é, naturalmente, a arte. Sobre a poesia, um professor dizia (acho que citando outrém) que se faz forjando uma fôrma, mas que só pode ser usada uma vez. Mesmo textos mais técnicos e menos literários perdem ao virar fórmula.

Enquanto a ciência lida com o desafio de fazer máquinas que consigam pensar como seres humanos, a gente tenta não virar robô. Em outro texto eu mencionei a triste influência do PowerPoint sobre o jornalismo. Mas e quando isso acontece com as Forças Armadas de um país constantemente em guerra? O New York Times fez uma matéria sobre a epidemia de slides entre os militares. Seth Godin complementa com comentários sobre o emburrecimento que geram os textos em tópicos.

Vendo as informações II

Tornar dados, especialmente números muito grandes, visíveis e compreensíveis não vem sendo uma preocupação exclusiva da internet. Depois do post anterior, lembrei de um trabalho muito legal: Of All The People In All The World. É uma exposição itinerante que convida pessoas a compartilharem e conhecerem estatísticas a partir de uma medida simples: uma pessoa = um grão de arroz. No vídeo acima, tem uma explicação melhor de como funciona o projeto. Dá pra ver fotos no Flickr.

Também esbarrei em outros trabalhos ótimos em infográficos. Em seu site Information Is Beautiful, David McCandless reúne trabalhos próprios (como este acima) e outros que ele encontra por aí. Ele é colaborador do Guardian Datablog, outra fonte interessante para encontrar gráficos e debate sobre eles.

Ali, um dos temas recorrentes são as eleições gerais no Reino Unido, que acontecem em 6 de maio – pesquisas são exatamente o tipo de assunto que se beneficia de uma abordagem visual inteligente. O que nos leva à última indicação do post: o blog do José Roberto de Toledo, que está analisando as pesquisas nas eleições de outubro.

Vendo as informações

No último fim de semana, circulou pela web o infográfico definitivo sobre infográficos. Embora ele obviamente aponte algo existente – gráficos vazios de conteúdo ou usando as ferramentas inadequadas – também vejo como mais um sinal de uma mudança importante em como consumimos informação e, por consequência, em como a processamos.

A disseminação do uso de gráficos, fluxogramas, mapas, nuvens, etc. é, em parte, moda (e um triste sinal que a cultura do PowerPoint chegou ao jornalismo). Mas é também uma adequação a uma nova conjuntura: uma grande quantidade de dados tornados públicos em formatos estruturados. Isso leva a um tipo de raciocínio que privilegia a visualização de dados, ao invés de abstração; o cruzamento de dados vindos de áreas diferentes, ao invés de especialização; e a possibilidade de interação e modificação dos dados iniciais.

Links interessantes:

Google Public Data – dá para comparar dados de origens diferentes, como produto interno bruto e taxa de natalidade, em países diferentes e ao longo do tempo.

GraphJam – nasceu com a brincadeira de transformar músicas, filmes e cultura pop em geral em gráficos, mas agora tem de tudo um pouco.

PivotTable – um demo da nova ferramenta da Microsoft para organizar e visualizar grandes quantidades de dados e imagens.

Gostaria de dar uma olhada no cardápio?

Como você escolhe o que comer quando está em um restaurante? Eu volta e meia continuo olhando o cardápio mesmo depois de pedir (e muitas vezes me remoendo se fiz a melhor escolha). Recentemente, me deparei com dois textos sobre design de cardápios, com diferentes pontos de vista, mas ambos mostrando quanto há para melhorar nessa área.

O primeiro saiu no Financial Times. O colunista Nicholas Lander pediu para o designer gráfico Mike Dempsey avaliar cardápios de alguns restaurantes. Dempsey analisa principalmente a legibilidade dos menus, sob parâmetros da mídia impressa: entrelinhas, tamanho da fonte, uso de títulos em corpo maior. Sua preocupação é que seja fácil para o freguês navegar pelas informações contidas ali.

Já o texto que saiu na New York Magazine mostra outra preocupação de quem desenha o cardápio: induzir o freguês a escolher os pratos mais lucrativos para o restaurante. Trata-se de uma amostra do livro Priceless: The Myth of Fair Value, de William Poundstone. Há dicas práticas para restaurateurs – por exemplo, não listar preços em uma coluna, o que facilita quem lê o cardápio a encontrar e escolher os pratos mais baratos – que podem funcionar como dicas para nós, fregueses.

Para mim, foi interessante me dar conta que cardápios são também objetos de design e peças de marketing. Como tantas coisas ao nosso redor, ele quase passa despercebido, embora possa influenciar tanto nossas decisões.

Usando o Modo de Usar

Meu primeiro blog, lá nos idos de 2002, chamava Modo de Usar. No comecinho, os posts tinham títulos no formato “Como fazer tal coisa”. O que eu não admiti por lá é que eu estava sob forte influência de uma série de textos do Umberto Eco chamada “Instruções de Uso”. Depois eu desisti de ecoar o Eco (dos trocadilhos infames, eu nunca desisti).

Enfim, o tempo passou, o blog foi abandonado, outro blog foi criado e abandonado. Agora, diante de uma mudança de rumo profissional (aos poucos eu conto mais), a ideia de ter um blog voltou (graças à sugestão do meu amor) e a vontade de retomar o nome, também. O tema pode ser definido como psicologia das coisas (que expressão legal!), como era o título original do livro do Donald Norman. Aqui as coisas podem ser tanto objetos físicos como sites e similares. Enquanto eu vou aprendendo, vou colocando minhas observações aqui.

Pra dar um exemplo, reproduzo um trecho de uma das crônicas do Umberto Eco que mencionei antes. Ela é engraçada e tem bastante a ver com o livro do Norman, também. É de 1985, então contém alguma referências à História Medieval, como disquetes. Mas, em essência, continua atual. Enjoy!

Como Seguir Instruções

Todos terão passado, em um bar, pela situação daquele açucareiro que, no momento em que o cliente procura extrair a colherinha, deixa cair a tampa como uma guilhotina, fazendo a colher voar pelos ares e espalhando nuvens de açúcar pela atmosfera circundante. Todos já devem ter pensado que o inventor deste instrumento deveria ser mandado para um campo de concentração. Em vez disso, é provável que hoje goze os frutos de seu delito em alguma praia exclusivíssima. Certa vez, o humorista americano Shelley Berman sugeriu que ele deve ser o mesmo que em breve inventará um carro totalmente seguro, com portas que só se abrem de dentro.

(…)

Eu tenho meu programa preferido de processamento de textos em computador. Se você compra um desses programas, recebe um pacote com os disquetes, as instruções e a licença… O problema começa quando se consulta o manual… Quando se tiram os manuais da embalagem, eles revelam uma multiplicidade de objetos de várias páginas, encadernados em concreto armado e portanto instransportáveis da sala para o escritório, e intitulados de maneira a não saber qual deve ser lido primeiro.

(…)

A única solução razoável é desmembrar os manuais, estudá-los seis meses com a ajuda de um etruscólogo, condensá-los em quatro páginas (o que é mais que suficiente) e depois jogá-los fora.

Sugestões de leitura: