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Tarde demais para lembrar

Meu trabalho atualmente é recuperar e contar uma história que começa antes do meu nascimento. Como a documentação é escassa, nossa principal tarefa é ouvir personagens contarem suas histórias, vê-los vasculhar baús que, muitas vezes, estavam fechados havia tempos. A memória alheia é minha matéria-prima.

Obama e Ahmadinejad

E, no entanto, ela é muito mais maleável do que se costuma imaginar: ao tentar pegá-la, por vezes a deformamos. Isso foi mais uma vez confirmado. Recentemente, a revista Slate fez alguns experimentos para mostrar como a memória pode ser manipulável. A revista alterou fotografias para que representassem fatos políticos inexistentes – e parte dos participantes lembrou desses fatos. A inspiração veio da pesquisadora Elizabeth Loftus, que há cerca de 40 anos estuda o assunto. Sua pesquisa jogou uma saudável sombra sobre a confiabilidade de testemunhos em tribunais e lembranças de abusos trazidas por psicoterapeutas. Ao ser informada de alguns detalhes, uma pessoa pode construir uma memória particular de um evento inexistente.

Lembrar é sempre inventar, mesmo quando se trata de fatos reais. Porque contar é inventar, e lembrar é contar, narrar, ainda que para si mesmo. Um trecho do livro-reportagem O Dilema do Onívoro, de Michael Pollan, ilustra bem como isso acontece.

Angelo apressou-se para ver o animal, excitado e ansioso para ouvir nossa história. É curioso o modo como a história em torno de uma caçada toma forma nos minutos que se seguem ao tiro, à medida que avançamos em meio à caótica simultaneidade do momento iluminador e fugidio, procurando fazer surgir da visão embaçada pela adrenalina algo linear e compreensível. Ainda que tivéssemos testemunhado juntos o acontecimento, Richard e eu tínhamos alternado cuidadosamente ao contar a história um para o outro durante a longa caminhada de volta, passando em revista nossa falta de atenção, relembrando as razões pelas quais Richard – e não eu – tinha atirado, tentando precisar a distância exata e o número de porcos envolvidos, desembrulhando lentamente o  momento e transformando nossa lembrança tumultuada num consenso em torno do fato – uma história de caçada.

Não é difícil se identificar com o trecho, mesmo para quem nunca segurou uma arma na vida. Repassar a história, tentar suprir as lacunas e mesmo imaginar a reação dos ouvintes são processos comuns e se tornam reais para que os vive. Se para um fato recente já é assim, que tal para eventos ocorridos há mais de 30 anos? Mas eu não planejo admitir derrota. Claro, tentar checar com fontes diversas, não colocar palavras na boca dos entrevistados – e lembrar que as verdades muitas vezes abrem seus caminhos em meio à ficção.

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Web filosófica

A estudante de jornalismo e psicologia Kate Ray fez um documentário excelente sobre a Web Semântica, desde os problemas com a enorme quantidade de informação com que se lida na internet, os modelos em discussão e as críticas.

O filme tangencia alguns pontos que já andavam rondando minha cabeça e que merecerão um post em breve: uma é o estresse causado pelo excesso de escolhas. Outra é visão do Tim Berners-Lee sobre o tipo de plataforma necessário. Ele diz que a web semântica

é apenas uma plataforma. Assim como a web. A ideia não é promover um tipo particular de aplicação. Assim como a internet não promoveu um tipo particular de aplicação, então eu pude construir a web sobre ela sem pedir a permissão de ninguém. Da mesma forma, a web semântica é de certo modo construída sobre a web, ela deve permitir que você construa o que quiser sobre ela.

Me lembrou que quero escrever sobre dispositivos e limites e dar meu pitaco de tapa na orelha do Steve Jobs.

O documentário também me abriu uma janela para o uso do termo ontologia dentro da ciência da informação – o que por sua vez descortinou mais uma vasta área da minha ignorância.  Mas não é que esse negócio de filosofia serve pra alguma coisa?

Por fim, curti as áreas de estudo da autora do filme. Muita gente vem falando sobre a importância de jornalistas estudarem programação, e eu apóio, mas estudar psicologia junto deve ser muito legal.