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Casas de vidro, parte I

Queria comentar três aspectos de algo que poderia, com algum sensacionalismo, ser chamado “o fim de todos segredos” ou, numa versão para paranóicos, “estão todos te vigiando”. O primeiro é a exposição voluntária ou semi-voluntária, da qual depois não conseguimos nos livrar; o segundo é como as empresas estão aprendendo mais e mais sobre nós sem que notemos; por fim, o fato de que governos e outras instituições também podem estar entrando na dança, como mostra o WikiLeaks. Para não ficar muito longo e para fingir que eu atualizo o blog com mais freqüência, vou dividir em partes. Valendo!

A falecida B*Scene, antes de dar seu último suspiro, ficou um tempo num limbo virtual: continuava no ar, mas não tínhamos mais acesso ao servidor diretamente. Poderíamos tentar descobrir uma maneira de desligar os aparelhos, mas não estávamos prontas para isso. Nesse período, houve quem, entre os autores convidados, nos pedisse para tirar ou modificar algum texto por questões profissionais. Infelizmente, não pudemos atender. E em todo caso, o cache do Google continuaria por algum tempo revelando a versão original.

Por outro lado, porém, ficaria triste de editar ou apagar algum texto que passou pelos nossos padrões quase antipaticamente exigentes. Esse sentimento dúbio vale para textos bem pensados e escritos, mas vale até para momentos realmente embaraçosos. Seria possível apagar as bobagens que falei (e as que ainda falo) sem apagar a boba que fui (e sou)?

O New York Times fez uma ótima extensa reportagem (que o Alex linkou no Twitter) sobre esquecer e perdoar na era digital. Fala de pessoas que perdem ou deixam de conseguir um emprego por causa de situações de suas vidas pessoais publicadas em redes sociais; fala sobre como fica recomeçar do zero e deixar o passado para trás; discute possibilidades legais, judiciais e tecnológicas para lidar com informações online que possam manchar a sua reputação – a mais interessante, a meu ver, é estabelecer prazos de validade para postagens, que se autodestruiriam após a data programada; cita campanhas para que jovens pensem antes de publicar; lembra a polêmica política de privacidade do Facebook e da visão de seu fundador, Mark Zuckerberg, de que exposição é a nova norma social (ele provou do próprio veneno); e aborda os aspectos morais e culturais que mudam quando nossa vida passa a acontecer em uma vitrine.

Esses são os que mais me interessam e preocupam, especialmente um possível retrocesso na ideia de moral & bons costumes. Afinal, vivemos uma época em que Steve Jobs se orgulha de libertar da pornografia os consumidores de iPhones e iPads. Casos mostrados na reportagem do NY Times poderiam facilmente ser considerados coisas corriqueiras, como a moça que queria ser professora bebendo em uma festa, e mesmo algumas mais graves deveriam ser encaradas sem tanto escândalo – somos apenas humanos, não é? Mecanismos para preservar os segredos que espalhamos sobre nós mesmos são bem-vindos. Mas nem todas as tatuagens poderão ser removidas ou desejaremos remover. Temos que viver com isso.

PS. Também podemos mudar o passado.

O ataque dos números

Venho construindo meu caminho com palavras, não números. Mas as aulas de Matemática pra mim nunca foram motivo de trauma, como aconteceu com bastante gente. Os que sofreram, em geral buscaram asilo na área de Humanas, pensando estar a salvo. E não estão.

É para os meus amigos numerofóbicos que eu recomendo dois artigos recentes.

Na Wired, Clive Thompson defende a necessidade de uma educação estatística. Ele argumenta (soa meio óbvio, até) que há questões que só podemos entender via estatística, como a economia ou o aquecimento global. Só nossa experiência não conta muita coisa. A estatística é a maneira de escaparmos de nós mesmos e termos uma ideia do mundo.

Nós costumamos dizer, com justiça, que a alfabetização é crucial para a vida pública: se você não sabe escrever, não consegue pensar. A mesma coisa é verdade para a matemática agora. Estatística é a nova gramática.

Mas existe também a chance de usarmos os números para afundarmos em nós mesmos. Em um longo artigo para a revista do New York Times, Gary Wolf fala sobre os self-trackers, pessoas que recolhem obsessivamente dados sobre seu dia-a-dia (alimentação, trabalho, atividade física e até sentimentos) em busca de descobertas sobre si mesmos. Ele aponta alguns fatores – avanço de sensores pequenos, celulares e redes sociais – que permitem que alguém decida analisar sua vida por uma série de planilhas. Além de maior controle, aparentemente fazer confissões a uma máquina é menos embaraçoso, mas ainda assim emocionalmente satisfatório.

Uma longa linha de pesquisa em interação humano-computador demonstra que quando máquinas recebem característica humanizadas e oferecem conforto emocional, nós de fato nos sentimos confortados. Isso é humilhante. Nós realmente nos sentimos melhor quando um computador nos dá um tapinha nas costas? Sim, nos sentimos.

O que intriga (e me incomoda um pouco) nisso não é procurar as respostas nos números, mas a pergunta que é feita. Auto-conhecimento é importante e Freud mostrou que podemos tratar neuroses conhecendo suas origens. Mas a obsessão com auto-conhecimento também chega às raias do patológico. Enquanto lia o texto, ficava me perguntando se o processo de anotar tudo em detalhes também era computado. É mais um número a se levar em conta.

Linha de montagem (Vendo as informações III)

Existe algo positivista na atual febre de gráficos e fluxogramas: uma crença que tudo no mundo pode ser dividido em partes ou etapas menores básicas, como átomos formando objetos. A cultura do computador nos faz buscar isso, afinal, é assim que computadores trabalham. Pra um computador, o importante é a descrição de cada passo do caminho, e não onde esse caminho vai dar. Pode reparar que algumas pessoas têm mais dificuldade de pensar dessa forma, de descrever suas tarefas cotidianas como algoritmo.

Mas o computador em si é herdeiro do processo de “dividir e conquistar”, que foi desenvolvido largamente devido à Revolução Industrial, especialmente o Taylorismo.

O problema é que nem tudo pode ou deve ser mecanizado ou computadorizado. Algumas coisas não têm fórmula e precisam ser encaradas integralmente. O primeiro exemplo é, naturalmente, a arte. Sobre a poesia, um professor dizia (acho que citando outrém) que se faz forjando uma fôrma, mas que só pode ser usada uma vez. Mesmo textos mais técnicos e menos literários perdem ao virar fórmula.

Enquanto a ciência lida com o desafio de fazer máquinas que consigam pensar como seres humanos, a gente tenta não virar robô. Em outro texto eu mencionei a triste influência do PowerPoint sobre o jornalismo. Mas e quando isso acontece com as Forças Armadas de um país constantemente em guerra? O New York Times fez uma matéria sobre a epidemia de slides entre os militares. Seth Godin complementa com comentários sobre o emburrecimento que geram os textos em tópicos.