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Entrelinhas

A linguagem é como um agente duplo de filmes de espionagem: serve simultaneamente para mostrar e para esconder, para contar e para dissimular. Existe um segundo código, sob o primeiro (a língua), que muitas vezes passa despercebido.

Isso, essa saudade das aulas de Linguística, veio à tona com dois textos. O primeiro é de uma moça que assina como Lynne Soraya e que tem um blog sobre sua vida com a síndrome de Asperger. No último post, ela fala sobre as dificuldades em se relacionar com outras mulheres, por causa das lacunas em cada conversa, dos pedaços não-ditos que devem ser adivinhados. Por exemplo, quando sua amiga lhe diz “A Jane confirmou presença na festa e não foi! Nem telefonou. Essa é a quinta vez! Você acredita?”, a resposta de Lynne seria “Sim, acredito” – afinal, é o comportamento esperado de alguém que já fez isso quatro vezes. Mas o que a amiga realmente quis dizer é “Você acredita [que ela me trate tão mal? Estou tão magoada!]?!” – é um pedido por apoio.

(Será mesmo que as mulheres se valem mais dos implícitos? Isso teria a ver com demonstrar emoções? Será que ainda não saímos do gineceu? Vou largar as perguntas aqui e mudar de assunto).

O segundo texto começa de forma ambiciosa (provavelmente demais): o colunista do Guardian Oliver Burkeman promete mudar sua vida. Ele utiliza uma divisão feita por Andrea Donderi, que propõe dois grupos: askers (perguntadores, pedidores) e guessers (adivinhadores). Os primeiros são a turma do “perguntar não ofende”: vale pedir aumento, dinheiro emprestado, etc. Se a resposta for negativa, a vida segue sem maiores problemas. Já os guessers evitarão ao máximo se arriscar a ouvir um não e farão rodeios para chegar onde querem. O problema, como se pode imaginar, é quando esses dois tipos (por personalidade ou por diferenças culturais) se encontram. A tradução dos termos do inglês para o português já mostra para que lado o pêndulo cai: em vez de um verbo só, temos pedir e perguntar, cuja construção – “você pode?” – são substitutas para a rudeza do imperativo.

São ruídos e silêncios. E com eles também se faz música.

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